02. Viviane Nunes Sarmento

Viviane Nunes Sarmento: "O que fazemos só tem sentido porque é coletivo, popular e construído por pessoas que acreditam em um país justo e para todos."

 

 

Na série Por Trás do Crachá, conhecemos o trabalho de quem faz a UFAPE acontecer.

Nesta edição, a conversa é com a professora Viviane Nunes Sarmento, coordenadora do programa de extensão Universidade Popular em Rede: formação em rede com movimentos sociais de Pernambuco.

O programa nasceu em 2021, a partir de iniciativas populares de Garanhuns, como um cursinho gratuito para o Enem e ações de conscientização lideradas por mulheres surdas. Hoje, reúne formação continuada em educação especial inclusiva para profissionais das redes públicas de ensino do Agreste, divulgação da Língua Brasileira de Sinais (Libras) e preparação de jovens do Agreste para o ensino superior. Tudo isso é feito em parceria com movimentos sociais e organizações populares, como o Movimento Surdo Agreste, a Associação de Surdos de Pernambuco (Asampe) e o povo Xukuru do Ororubá.

Em 5 de dezembro de 2025, o programa conquistou o 1º lugar na categoria Inclusão e Diversidade da primeira edição do Prêmio BRB de Impacto Social, entre quase mil inscritos de todo o país. Na entrevista, a professora fala sobre o que esse reconhecimento significa para o trabalho coletivo, como o prêmio de R$ 30 mil vai ampliar o projeto (inclusive levando o cursinho popular aos quilombos), o que já mudou dentro das escolas e por que, para ela, inclusão não é coisa de especialista.

 

1. Você coordenou o programa Universidade Popular em Rede, que ficou em 1º lugar na categoria Inclusão e Diversidade do Prêmio BRB de Impacto Social. Se você tivesse que contar para alguém de fora da universidade, em uma frase, o que esse prêmio representa?

Quando a força popular coletiva se mobiliza, estruturas são fraturadas e a luta por justiça ganha contornos. O que fazemos só tem sentido porque é coletivo, popular e construído por pessoas que acreditam em um país justo e para todos.

 

2. O programa concorreu com quase mil inscritos de todo o Brasil e ficou em 1º lugar na categoria Inclusão e Diversidade. O que esse resultado diz sobre o trabalho que vocês fazem aqui no Agreste?

Reconhecimento é bom e nos dá energia para continuar. É muito importante para todos nós. Também nos mostra o impacto dessa movimentação que é a Universidade Popular em Rede, que versa sobre o debate da inclusão lado a lado com as pessoas com deficiência e pessoas surdas e que se agarra à educação como essa força motriz que impulsiona oportunidades e mudança.

Entretanto, acredito que diz mais sobre o nosso trabalho ter estudantes do cursinho popular ingressantes (feras) na nossa universidade, o compartilhamento de práticas de professoras que estiveram conosco na construção das formações, ter a comunidade surda como parceira e sermos apoiadores da luta deles. Acredito que, para além da premiação, encontramos sentido no nosso trabalho dessa forma.

 

3. O valor do prêmio, R$ 30 mil, precisa ser investido na expansão do projeto. Pra onde esse dinheiro vai?

Aplicamos o dinheiro em materiais que contribuem para o desenvolvimento do projeto. A ideia é que, para os próximos anos, com a aquisição desses equipamentos, como câmera, fardamentos, computador, aparelho celular, microfone, material de identidade visual etc., possamos expandir o enraizamento nos territórios. Por exemplo, oferecer os equipamentos para que o cursinho popular possa ser realizado nos quilombos e conduzido pelos educadores quilombolas.

No que se refere à formação de professores, pudemos também fazer registros de memória que mostram como construímos a educação especial inclusiva em nossos territórios. Afinal, a nossa educação precisa ter a nossa cara: a do povo pernambucano agrestino, dos estudantes com deficiência e das educadoras que estão diariamente nas escolas. Nesse sentido, esses registros e materiais construídos a partir dos equipamentos adquiridos servirão de estudo para as próximas formações e para os educadores que atuam em Garanhuns e regiões. Um material construído pelas vozes e práticas dos territórios.

 

4. Se a gente estivesse tomando um café e você tivesse que explicar o que é a Universidade Popular em Rede pra alguém que nunca ouviu falar, como seria?

O programa Universidade Popular em Rede vem formalizar uma série de ações que a UFAPE já realiza no território do Agreste Meridional, com alto impacto social e construídas com parcerias já consolidadas com os setores da educação e com movimentos sociais, tais como o Movimento Brasil Popular, o Cores da Resistência, o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra, o movimento surdo e o das pessoas com deficiência.

Nossa atuação se concentra no campo da inclusão social, no que tange a ações relacionadas à educação, de modo a garantir o acesso, a permanência e/ou condições pedagógicas equitativas nas escolas para pessoas com deficiência, disseminar a Língua Brasileira de Sinais, bem como oportunizar a preparação de jovens dos municípios do Agreste em cursinhos pré-vestibulares, contribuindo com a democratização do ensino superior em nossa região.

 

5. O programa nasceu em 2021, a partir de iniciativas populares em Garanhuns. Como ele cresceu até chegar às 18 secretarias municipais de educação de hoje?

A parceria com os movimentos sociais é muito importante, pois, como eles já possuem enraizamento e um trabalho de diálogo nos territórios, promovem essa mediação para que possamos pedir licença e dialogar com as referências de cada lugar do Agreste.

Nesse sentido, as parcerias acabam sendo construídas no diálogo e no compartilhamento. Na maioria das vezes, nos deslocamos até os territórios para realizar conversas e planejamentos pessoalmente, além de realizar escutas sobre as necessidades de cada espaço. Esse movimento contribui para que possamos construir formações coerentes, no caso da formação de professores no contexto da educação especial inclusiva, bem como pensar em estratégias de transportes, alimentação e combate à evasão dos jovens que frequentam o nosso cursinho.

 

6. Quem são as pessoas que caminham nessa rede com vocês, Movimento Surdo Agreste, Asampe, povo Xukuru do Ororubá? O que essas parcerias trazem pra formação que a universidade sozinha não traria?

Movimento Brasil Popular, Cores da Resistência, MST, povo Xukuru do Ororubá e movimento de luta das pessoas com deficiência são nossos principais parceiros.

Eu diria que, sem eles, não há Universidade Popular em Rede, porque a rede se trata da atuação da organização popular.

A universidade, nesse contexto, cumpre o seu papel na extensão e entra como força institucional, uma facilitadora do trabalho coletivo e organizado que já construímos juntos. Digo nós porque também tenho a minha história nas bases da luta organizada, como movimento em nosso território, por meio da luta da classe trabalhadora, da luta pela terra, da luta LGBT+, pela Educação e por justiça social!

7. O que já mudou, na prática, dentro das escolas depois dessas formações?

Tem uma frase de uma amiga minha, Mariana Rosa, de que gosto muito: "o cotidiano é currículo".

Quando nossas ações impactam o cotidiano por meio do trabalho de um professor, acreditamos que estamos pautando a justiça curricular. Quando encontramos estudantes do nosso cursinho em nossa sala de aula, ou como extensionistas do nosso projeto, porque entendem a importância da democratização do acesso ao ensino superior, isso é cotidiano. Quando encontramos jovens que conheceram a Libras e seguiram sua carreira construindo o compromisso do acesso à língua com a comunidade surda, é cotidiano.

Eu diria que a mudança é cotidiano, organização coletiva e consciência de classe.

 

8. Tem algum sonho ou próximo passo pro programa que ainda está na gaveta?

Nossa expectativa é que, à luz da continuidade da democracia em nosso país, possamos continuar tendo políticas públicas permanentes de incentivo a que filhos e filhas da classe trabalhadora ingressem na universidade.

Que possamos continuar pautando a inclusão por meio de políticas permanentes de acesso, permanência e aprendizagem para as pessoas com deficiência e pessoas surdas, em todas as modalidades e níveis de ensino.

Nosso sonho, na verdade, é continuidade. Um projeto de nação para todos, pois o nosso trabalho só tem base e incentivo se a universidade pública, gratuita e de qualidade for solo democrático e popular, que contribui na luta pelas reparações históricas. Não há universidade sem povo!

 

9. Você também coordena a gestão pedagógica no novo Centro de Formação em Educação Especial Inclusiva do MEC. Como essa experiência conversa com o trabalho de vocês aqui no Agreste?

A coordenação de gestão pedagógica trata da construção dos centros de referência em formação continuada de educação especial inclusiva. É um trabalho que envolve compromisso social e diálogo com as bases para a implementação da nova política e de uma formação pautada nas necessidades apontadas pelas redes e pelos territórios. Tive o privilégio de estar coordenando Pernambuco nesse processo.

Tem tudo a ver com o que fazemos aqui, pois se trata de uma organização pela redução das desigualdades, no compromisso com uma escola para todas as pessoas.

 

10. Que conselho você daria pra quem acha que inclusão é "coisa de especialista" e não enxerga seu próprio papel nessa luta?

O modo de produção capitalista faz com que a gente acredite em uma sociedade individualista, meritocrática e normatizada.

Quando desconstruímos essas determinações, inevitavelmente o nosso compromisso como educadores é revisto. Isso porque, em uma sociedade rasgada pela desigualdade, as corridas pelos acessos e espaços são absurdamente injustas. Talvez, ao perceber essas largadas desiguais, seja o momento de gritarmos as nossas indignações e gritá-las de muitas formas. Isso passa pela compreensão de quem oprime e de quem é oprimido, de quem agride e de quem é agredido, de quem é privilegiado e de quem não é.

O compromisso com uma educação para todas as pessoas passa por essa compreensão e por esse grito. Quando enxergamos que, ao construirmos comunidade, gritamos coletivamente e que, assim, o grito é mais potente e radical, ao sabermos que educação inclusiva não é coisa de especialista, que a preocupação com a violência não é apenas de quem sofre e que o racismo não é apenas problema de quem o sente na pele, temos condições de construir agendas efetivas e reparadoras contra a brutalidade das opressões.

Assumir os compromissos coletivos contra as estruturas de opressão é construir comunidade, pois não se consegue sozinho.