01. Erika Valente de Medeiros

Érika Valente de Medeiros: "Excelência científica não tem CEP"

 



Ela estuda um mundo que a gente pisa todos os dias sem perceber: o solo. Professora e diretora do Departamento de Pós-Graduação da UFAPE, Érika trabalha com microrganismos da Caatinga e com o biochar, uma espécie de "hotel para microrganismos" que ajuda a devolver saúde à terra.

Em agosto de 2026, ela foi a vencedora do Prêmio Mulheres do Agro, na categoria Ciência e Pesquisa, com 18.575 dos 40.892 votos da votação popular. Foi indicada por uma aluna de mestrado, Sabrina Esposito, e era a única finalista do Nordeste.

Nesta conversa, Érika explica biochar como quem toma um cafezinho, conta o que pretende fazer com os R$ 20 mil do prêmio (incluindo um cantinho de convivência para os estudantes do laboratório), fala sobre Saúde Única e manda um recado emocionado para as meninas do Agreste que sonham em ser cientistas: a ciência precisa de gente como você.

 

1. Se você tivesse que falar sobre esse prêmio pra alguém que não é da academia, em uma frase, o que diria?

Érika: Esse prêmio mostra que uma pesquisa que nasce aqui no Agreste, estudando o nosso solo e buscando soluções para os nossos problemas, pode ganhar o Brasil ou, como eu sempre digo aos meus alunos, pode ir “ao infinito e além!”

 

2. Você foi indicada por uma aluna sua. O que esse gesto significou pra você?

Érika:Talvez essa tenha sido uma das partes mais bonitas desse prêmio. Prêmios e reconhecimentos são importantes, claro, mas saber que uma aluna olhou para a minha trajetória e pensou: “Minha professora merece estar ali” teve um significado muito especial para mim.

Porque eu acredito que a nossa maior entrega como professora são as pessoas que passam por nós. Pessoas que nos ensinam alguma coisa e que também levam um pouquinho da gente com elas.

Eu já tive a felicidade de formar muitos estudantes, e hoje vejo vários deles como professores, pesquisadores e profissionais construindo suas próprias trajetórias. E isso é maravilhoso.

Então, ser indicada por uma aluna me fez pensar que talvez o legado mais bonito de uma cientista não esteja apenas no que ela descobre, mas também em quem ela ajuda a descobrir que pode ser cientista.

E eu quero muito que as meninas que estão hoje nas escolas e universidades do interior do Nordeste olhem para histórias como a minha e pensem: “Então eu também posso.”

Porque podem. Elas podem fazer ciência, podem ocupar esses espaços e, sim, podem ganhar o mundo!

 

3. Você foi a única finalista do Nordeste na categoria Ciência e Pesquisa. O que isso diz sobre pesquisa feita fora do eixo Sul-Sudeste?

Érika: Eu acho que diz algo muito importante e que eu venho repetindo: “excelência científica não tem CEP.”

Nós temos pesquisadores extraordinários no Nordeste e temos problemas científicos extremamente relevantes para investigar aqui.

Eu trabalho com a Caatinga, com solos do semiárido, com microrganismos adaptados a condições extremas. Durante muito tempo, alguém poderia olhar para isso como uma limitação geográfica. Eu vejo um laboratório natural extraordinário!!!!

Além disso, o que pode ser mais poderoso: fazer ciência no Nordeste significa formar pessoas no Nordeste.

Quando uma pesquisa feita aqui recebe reconhecimento nacional, ela mostra para os nossos estudantes que eles não precisam estar nos grandes centros para produzir ciência de impacto.

Sim!!!!Nós podemos fazer ciência de fronteira a partir do Agreste pernambucano, acredite!!!

 

4. A premiação inclui R$ 20 mil para a pesquisa. Dá pra contar um pouco do próximo passo da pesquisa?

Érika: Dá, e essa é uma das partes que mais me entusiasma: eu quero que esse prêmio volte para o lugar de onde ele veio: para a pesquisa e para os estudantes que fazem essa pesquisa acontecer todos os dias.

Nosso grupo trabalha com microrganismos benéficos e com o desenvolvimento de bioinsumos associados ao biochar. De forma bem simples, nós buscamos na própria biodiversidade microbiana soluções para uma agricultura mais sustentável. Então, parte desse recurso será destinada a avançar na caracterização e validação dessas tecnologias.

Mas eu tenho também um desejo muito especial. Se as regras de utilização do recurso permitirem, gostaria de criar no prédio dos laboratórios um pequeno espaço de convivência e descompressão para os estudantes: um lugar confortável, com uma boa mesa para almoçarem juntos, uma TV, onde possam conversar, descansar um pouco e trocar ideias.

Pode parecer algo pequeno, mas quem vive em um laboratório sabe que ciência não acontece apenas na bancada. Muitas boas ideias surgem em torno de uma mesa, numa conversa entre um experimento e outro.

E existe uma razão ainda mais importante para eu querer fazer isso: no cotidiano, são os nossos estudantes que carregam grande parte da vida do laboratório. São eles que estão nos experimentos, nas coletas, nas análises, enfrentando conosco quando alguma coisa dá errado e comemorando quando finalmente dá certo. Então, se eu puder devolver uma parte desse reconhecimento a eles, para mim terá um significado enorme.

No fim, eu quero que esses vinte mil reais façam duas coisas: ajudem a nossa ciência a avançar e cuidem um pouco das pessoas que fazem essa ciência avançar.

Porque esse prêmio não representa o final de uma trajetória. Ele é combustível para as próximas perguntas científica e para quem vai ajudar a respondê-las.

 

5. Se a gente estivesse tomando um cafezinho e você tivesse que explicar “o que é biochar e por que ele importa”, como seria?

Érika: Eu diria assim: imagine transformar um resíduo vegetal em um material rico em carbono, muito poroso, quase como uma pequena esponja.

Isso é o biochar.

Quando ele vai para o solo, esses poros podem ajudar a reter água e nutrientes e também criar pequenos espaços onde os microrganismos conseguem viver.

E é justamente aí que entra uma parte da nossa pesquisa: nós associamos microrganismos benéficos ao biochar.

Eu gosto de pensar nele como uma espécie de “hotel para microrganismos”: oferece abrigo e ajuda esses organismos a chegarem ao solo em melhores condições.

E ainda existe uma vantagem extraordinária: parte daquele carbono pode permanecer armazenada no solo por muito tempo. Então estamos tentando juntar três coisas que normalmente discutimos separadamente: solo, microbiologia e carbono.

 

6. Quando essa pesquisa chegar em escala maior, o que muda na prática pra quem trabalha a terra no Agreste?

Érika: Essa é a pergunta que realmente importa.

Porque uma tecnologia pode funcionar maravilhosamente no laboratório e não resolver absolutamente nada na propriedade rural.

O que nós queremos é desenvolver soluções que façam sentido nas condições do Agreste: solos com limitações de fertilidade, disponibilidade irregular de água e produtores que precisam obter resultado com recursos limitados.

Se conseguirmos transformar resíduos disponíveis na região em biochar e associá-los a microrganismos adaptados às nossas condições, podemos criar tecnologias mais eficientes no uso de água e nutrientes e que contribuam para recuperar a saúde do solo.

Para mim, uma tecnologia só termina de ser desenvolvida quando chega a quem precisa dela.

 

7. Por que estudar o solo é, na prática, também estudar a saúde de quem come o que vem dele?

Érika: Porque a nossa saúde começa muito antes de o alimento chegar ao nosso prato. Ela começa, em grande parte, no solo.

Às vezes olhamos para o solo apenas como o lugar onde a planta cresce, mas ele é um ecossistema vivo, com uma biodiversidade extraordinária. Em uma pequena quantidade de solo existem milhares de microrganismos interagindo, decompondo matéria orgânica, ciclando nutrientes, ajudando as plantas a se desenvolverem e participando de processos fundamentais para o funcionamento dos ecossistemas.

A saúde do solo influencia a saúde das plantas, que influencia a saúde dos animais e das pessoas que dependem desses sistemas.

Mas essa relação vai além da produção de alimentos. Um solo saudável participa da regulação da água, do ciclo do carbono e dos nutrientes, sustenta biodiversidade e pode contribuir para reduzir a disseminação de contaminantes e organismos potencialmente prejudiciais. Quando degradamos o solo, portanto, não estamos perdendo apenas produtividade agrícola; estamos alterando um sistema que presta serviços essenciais à nossa própria saúde.

É exatamente aí que entra um conceito com o qual eu trabalho e que considero muito importante: Saúde Única, ou One Health.

Saúde humana, saúde animal, saúde vegetal e saúde ambiental não funcionam em caixinhas separadas. Elas estão conectadas. E o solo está na base de muitas dessas conexões.

Por isso, quando estudamos a saúde do solo, não estamos perguntando apenas: “Esse solo consegue produzir mais?” Estamos fazendo uma pergunta muito maior: “Esse solo consegue sustentar um ecossistema saudável e, consequentemente, contribuir para a nossa própria saúde?”

Assim: não existe Saúde Única sem saúde do solo. E é muito difícil pensar em pessoas saudáveis vivendo sobre solos doentes.

 

8. Tem algum projeto que ainda está na gaveta ou que você ainda não conseguiu implementar, mas do qual você não desiste?

Érika: Tenho muitos sonhos para que nossa querida UFAPE vire um centro de excelência em pesquisa e pós-graduação.

Eu gostaria de construir na UFAPE uma grande coleção de microrganismos do semiárido, associada a informações sobre suas funções e sua segurança.

Nós temos uma biodiversidade microbiana extraordinária na Caatinga. Em nossas pesquisas, já encontramos microrganismos muito interessantes e até descrevemos novas espécies. Mas descobrir é apenas o começo.

Meu sonho é transformar essa biodiversidade em um patrimônio científico organizado, preservado e disponível para gerar novas pesquisas e novas tecnologias.

Porque existe uma riqueza invisível debaixo dos nossos pés.

E nós ainda conhecemos muito pouco dela!!!

 

9. Se pudesse mandar um recado pra Érika recém-chegada na UFAPE, o que diria?

Érika: Eu acho que eu diria: “Érika, vai dar muito mais trabalho do que você imagina!!! Começar uma Universidade do zero e construir junto com pessoas maravilhosas alguns departamentos e normativas vai dar trabalho, mas continue porque será gratificante demais. Continue montando o laboratório, mesmo quando faltar equipamento. Continue submetendo projetos, mesmo depois dos “nãos”. Continue formando alunos. Continue procurando parceiros. Continue fazendo aquelas perguntas que parecem grandes demais para a estrutura que você tem naquele momento. Você poderá encontrar parceiros que irão segurar na sua mão e te ajudar em todos os aspectos, mesmo quando tudo parecer perdido. Porque um laboratório não nasce pronto. Uma linha de pesquisa não nasce pronta. E uma universidade também não.”

Quando olho para trás, percebo que muita coisa que hoje parece uma conquista começou com condições muito mais simples, com estrada de barro, apenas com uma bancada e com pessoas que decidiram construir juntas.

Então talvez eu dissesse para aquela Érika: “Você ainda não consegue enxergar, mas algumas das coisas que hoje parecem impossíveis vão virar rotina, só tenha um pouco mais de paciência.”

 

10. Que conselho você daria pra uma estudante do Agreste que sonha em ser pesquisadora, mas acha que “ciência não é pra gente como eu”?

Érika: Eu começaria perguntando: “Gente como quem?”

Porque talvez uma das coisas mais cruéis que uma menina possa aprender seja acreditar que existem sonhos que não foram feitos para gente como ela.

Ciência não tem um tipo de pessoa. Ciência é para quem tem curiosidade, para quem pergunta “por quê?”, para quem olha para um problema e pensa: “Será que existe um jeito de fazer diferente?”

E eu gostaria muito que uma menina que está hoje em uma escola do Agreste soubesse que o lugar onde ela nasceu não determina o tamanho do lugar que ela pode ocupar no mundo.

Ela pode sair daqui e conhecer grandes laboratórios. Pode fazer mestrado, doutorado, publicar suas descobertas, trabalhar com pesquisadores de outros países, liderar seu próprio grupo de pesquisa... e pode fazer tudo isso sem deixar de pertencer ao lugar de onde veio.

Eu vivi uma situação recentemente que talvez explique melhor isso do que qualquer conselho que eu pudesse dar. No desfile de 7 de Setembro, uma escola decidiu me homenagear. E havia “meninas vestidas de jaleco, representando cientistas e com minha foto lá como uma cientista que inspira, minha nossa!!! Aquilo me emocionou profundamente. Porque, olhando para aquelas meninas, eu não estava pensando em prêmio, currículo ou publicação. Eu estava pensando no que significava uma criança do interior do Nordeste vestir um jaleco e, mesmo que por alguns minutos, “se enxergar naquele lugar”. Talvez algumas delas nunca tenham pensado antes: “Eu posso ser uma cientista.” E é isso que eu gostaria de dizer para essa estudante: Você pode!!!! Pode fazer ciência. Pode ocupar espaços que hoje parecem muito distantes. Pode conhecer o mundo. Pode sentar à mesa com grandes pesquisadores e descobrir que aquela cadeira também é sua. E, um dia, pode voltar e fazer outra menina olhar para você e pensar: “Se ela conseguiu, talvez eu também consiga.”

Porque talvez essa seja uma das coisas mais bonitas da ciência: quando uma de nós chega mais longe, ela deixa o caminho um pouco mais visível para as que vêm depois. Então eu não diria apenas que a ciência é para gente como você. Eu diria: A ciência precisa de gente como você. Vista o seu jaleco. O mundo é muito maior do que o lugar onde você começou, e você também pode ir ao infinito e além!!!!!

Obrigada.

 

*Uso de imagens autorizado.